Crise urbana e o coronavírus

(Texto postado originalmente no Facebook e adaptado para o blog)

Quase não me manifesto desta maneira nas redes sociais. Prefiro postar fotos de viagens, passeios, amigos e família. Questões mais polêmicas eu deixo para discutir no âmbito do trabalho e na sala de aula. Porém, devido ao isolamento social e portanto com um pouco mais de tempo, resolvi me arriscar nesta reflexão.

Quem já trabalhou ou trabalha comigo, ou foi/ainda é meu aluno na disciplina de Urbanismo – que em resumo trata-se do estudo das cidades – vai se lembrar que sempre trago à discussão estes temas: “Quais as principais diferenças entre as favelas e os condomínios? Qual a semelhança das cidades muradas da antiguidade com as da atualidade? E das epidemias existentes no início do século XX e a falta de saneamento básico nas cidades de hoje? E mais: as pessoas realmente moram em favelas por opção?

Também sempre faço referência à dura realidade tão bem retratada no rap, através de músicos como Criolo, Emicida, Gabriel O Pensador e O Rappa, que expressam através da arte a vida urbana periférica.

Com toda esta triste questão do coronavírus – já caracterizado como uma pandemia mundial – os fatos nos mostram que por mais que tenhamos muros dividindo a sociedade entre ricos e pobres, convênio médico particular ou SUS, no final das contas pouco importa. Não será suficiente esta divisão.

É evidente que em situações de alta vulnerabilidade, como em moradias precárias, nas quais seus moradores dormem um ao lado do outro, muitas vezes coabitando o mesmo cômodo, sem condição de isolamento e muitas vezes sem água e sabão para lavar as mãos (quem dirá dinheiro para comprar álcool em gel!), o problema é muito maior.

Porém a exclusão física não divide o meio ambiente, em seu sentido mais amplo. Assim, esta urbanização periférica que presenciamos, excludente e segregada, que vem ocorrendo em toda a América Latina e em países subdesenvolvidos de maneira geral, é um modelo que passou da hora de ser revisto e revertido.

Sabemos que não se resolve a curto prazo o que vem sendo detonado há muito tempo por um sistema capitalista exacerbado no qual o dinheiro vale mais que vidas, um sistema que já deu sinais de que o barco está furado e todos vamos afundar. Instrumentos legais, recursos, criatividade, tecnologia, vários são os caminhos para reverter essa lógica perversa, porém é necessário ação concreta principalmente por parte dos governos, antes que seja tarde demais.

Em tempo: os canais de comunicação só têm desgraça para mostrar, como o Fantástico ontem (29/03/2020), noticiando a realidade das favelas no Rio de Janeiro (que não são muito diferentes das nossas em São Paulo). Difícil é ter uma notícia boa como projetos de regularização fundiária nestes locais, urbanização de favelas, moradia digna e saneamento básico.

Favela no Rio de Janeiro
Favelas no Rio de Janeiro/RJ – Fonte: Jacqueline Emerich Souza

Sobre a autora

Silvia Morales é engenheira civil, graduada pela Escola de Engenharia de Piracicaba, especialista em Desenho e Gestão do Território Municipal pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUCC –Pontifícia Universidade Católica de Campinas e Mestre em Engenharia Urbana pelo Departamento de Engenharia Civil  da  UFSCAR – Universidade Federal de São Carlos. Trabalhou em diversas prefeituras do estado de São Paulo com planejamento urbano e habitacional. Atualmente é professora universitária e assessora legislativa na Câmara de Vereadores de Piracicaba/SP.

Contato: eng_silviamorales@hotmail.com